14 março 2016

O aparelhamento às avessas da Polícia Federal

PFPresença de delegados da PF nos protestos de ontem apontam para um perfil não isento de muitas de suas autoridades.
Desde que o Partido dos Trabalhadores assumiu a gestão do País, um mantra passou a ser repetido pela dita "grande imprensa" - o tal "aparelhamento do estado". Logo, os seus seguidores passaram a repeti-lo, inclusive dentro da Polícia Federal, mesmo que nenhum cargo de confiança tenha sido entregue a qualquer petista ou simpatizante. O detalhe é que, quando é usado tal argumento para demonstrar a inconsistência dessa assertiva, leia-se, mantra, a resposta que se ouve é um lacônico "graças a Deus".
O oportunismo classista de uma entidade de classe dos delegados federais, na manifestação de ontem, demonstra a clara falta de isenção. Reflete, no fundo, o sentimento de uma categoria, que de há muito já mostrou preferências eleitorais. Desse modo, a palavra isenção não vai além de uma simples retórica, dentro da Polícia Federal. Basta um simples olhar nas páginas de muitos delegados federais nas redes sociais.
Abro espaço para falar de um aparente perfil dominante da Polícia Federal.
Não preciso falar do perfil policial da época da ditadura, sobejamente conhecido ou presumido. Quero lembrar que nesse mesmo espaço, deixei documentado que em diversas oportunidades a PF não realizou concursos em São Paulo, porque até cobrador de ônibus tinha um salário melhor do que o de um agente ou escrivão. Assim, em que pese o grande número de vagas existente em São Paulo, os policiais vinham de outras regiões mais pobres.
Desse modo, o que atraiu o atual contingente da PF foram os salários, substancialmente melhorados, diga-se de passagem, na gestão do Partido dos Trabalhadores. A propósito, o salário de um policial da PF era uma ninharia e o restante eram gratificações e mais gratificações, criadas e extintas conforme a conveniência do gestor de plantão.
Por que falo disso? Porque bons salários atraem outro tipo de público. Leia-se, só os que estudaram em escolas particulares, universidades caras ou públicas, versado em uma ou mais línguas e outras habilidades é que passaram a ter acesso à PF. Disso se deduz que são pessoas egressas predominantemente da classe média, alta ou baixa, que compõem o novo perfil.
A PF, predominantemente, é formada por classe média, aquela na qual predominam determinados valores elitizados. E, sequer pode-se falar tanto em vocação, já que, segundo a lenda dos "canas-duras", a categoria agrega procuradores da República e juízes frustrados. A prevalecer o raciocínio dos "canas-duras", ser delegado federal "foi o que deu pra hoje", sempre ressalvando as exceções, conjecturas e elucubrações.
Sob qualquer ângulo que se analise esse perfil, a conclusão óbvia é da predominância dentro da PF dos denominados valores "classe média", aquela classe social sobre a qual ironicamente se diz que, "compra o que não precisa com o dinheiro que não tem, para se exibir para pessoas das quais não se gosta". É, pois, de se imaginar, que respeitadas as exceções, que a influência desse ideário sobre qualquer operador do Direito pode arranhar a imparcialidade.
Desse modo, bom ficar claro que os ocupantes de cargos da PF, Ministério Público e Justiça Federal seguem a mesma linha e não vêm de outro planeta. São egressos da sociedade com suas contradições. Assumem funções públicas com a bagagem cultural socioeconômica de suas respectivas origens. No caso, ficam explicados os tratamentos reverenciais, tais como "excelência", as mesas e cadeiras mais altas e os ternos olhares do "você sabe com quem está falando"?.
A imparcialidade é uma utopia humana. Presa na subjetividade, ela exige um permanente exercício para que não se exteriorize o inverso – a parcialidade. Não é o que temos visto. O juiz Sérgio Moro, por exemplo, apesar da atribulada agenda e do volumoso processo que se presume compor a Lava Jato, ele não mede esforços para aceitar convites para receber prêmios, fazer palestras, com invitáveis pronunciamentos de conotação política. Até sua genitora vem sendo homenageada por ter trazido ao mundo um novo Messias.
Com esse perfil classe média, visível na PF e noutras instituições, soa natural a identificação de tais servidores com políticos conservadores. Mas não para por aí. A PF também abriga um segmento de delegados mais radical ainda. Nesse outro grupo, constata-se uma verdadeira paranoia anticomunista e grandiloquências politiqueiras exteriorizadas por muitos em redes sociais. O exemplo mais visível estaria em um servidor que, segundo a lenda, almejava um cargo nos Estados Unidos. Como teria sido preterido, hoje, não poupa ofensas à Presidente Dilma Rousseff e aqui ali mostra os "avanços do comunismo no Brasil".
Sem isenção aparente, se o tal aparelhamento da PF existe, ele está pelo avesso. O verdadeiro aparelhamento da instituição é outro, marcado pelo perfil não isento de muitas de suas autoridades.
Desse modo, a presença de delegados federais no protesto de ontem não parece ser novidade. Fatos que pareciam isolados, simples fogueiras de vaidade, como as duas investidas contra o ex-Presidente Lula, se afiguram compor um mesmo universo. Serviram, na prática, para reacender a indignação dos derrotados nas últimas eleições presidenciais. Tudo em sintonia com o insuflar da dita "grande mídia". Não deu outra. O movimento de ontem ganhou expressão numérica, mas permanece vazio de conteúdo. Mas a PF não perdeu a condição de cereja desse bolo.

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