11 abril 2017

Golpe misógino rebaixou a mulher brasileira

 
É possível que, dentro de algumas décadas, quando estiver superada a cultura do ódio, haja um consenso na sociedade brasileira sobre o período mais vergonhoso da história nacional, que é o atual, decorrente do golpe parlamentar de 2016.
Afinal, que país do mundo permitiria que uma presidente reconhecidamente honesta, até pelos adversários, fosse afastada do cargo por uma conspiração de políticos corruptos, atolados até o pescoço em escândalos de corrupção? E que este grupo, no poder, se dedicasse a eliminar garantias trabalhistas e a matar o sistema de seguridade social, além de vender riquezas como o pré-sal e o próprio território nacional?
Este período infame da história brasileira foi construído metodicamente. Nasceu com os protestos de 2013, inflados por grupos de comunicação interessados na reconquista do poder, e, em plena Copa do Mundo de 2014, teve seu clímax. Na abertura do Mundial, a presidente Dilma Rousseff foi saudada, pela ala vip dos torcedores, por um estrondoso "Ei Dilma, VTNC", também amplificado pela mídia.
Na construção do golpe misógino, grupos fascistas chegaram até a distribuir adesivos com uma Dilma de pernas abertas para serem colados nos tanques dos automóveis. Quando ela foi finalmente deposta, Brasília estava repleta de adesivos com a inscrição "Tchau, querida". Os machões do poder não suportavam mais receber ordens de uma mulher corajosa e com passado de guerrilheira.
O novo papel da mulher brasileira foi revelado rapidamente pela revista Veja num perfil de Marcela Temer, a "bela, recatada e do lar". E o Brasil, um país de programas sociais mundialmente reconhecidos, voltou a concentrar renda para que Marcela pudesse retomar o velho papel assistencialista das primeiras-damas do século passado com seu "criança feliz", que ninguém sabe ao certo a que veio.
Um ano depois do golpe, Dilma dá palestras na Europa e nos Estados Unidos, enquanto Michel Temer mal consegue sair do seu palácio, mas a mulher brasileira foi rebaixada. A nova vítima foi a apresentadora Rachel Sheherazade, do SBT, que foi humilhada pelo patrão Silvio Santos em rede nacional de TV.
Num vídeo chocante para o século 21, Silvio Santos disse que Rachel, que fez fama destilando ódio contra o PT, foi contratada apenas por sua beleza e para ler notícias no teleprompter, e não para dar suas opiniões. Ele questionou ainda se o marido a deixava trabalhar e também disse que, a partir de agora, a ordem no SBT é só falar bem dos políticos – talvez porque, com Temer, a publicidade governamental tenha voltado aos padrões anteriores.
O machismo, no entanto, não é exclusividade do SBT. Como o golpe também foi misógino, na mesma Globo que decidiu ensaiar uma onda de indignação contra o ator José Mayer – com o slogan "mexeu com uma, mexeu com todas" – um integrante de seu BBB, Marcos, agrediu outra participante, Emily, de dedo em riste. Se o Brasil foi capaz de agredir a primeira mulher a chegar à presidência da República, com um impeachment sem crime de responsabilidade, por que outras não seriam também agredidas?

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