09 junho 2017

Gleisi defende diretas e diz que Lula é o plano A, B e C

Lula Marques/Agência PT 
Por Ivan Longo, Revista Fórum - Em meio ao turbilhão de denúncias que abalam o Planalto, o Congresso, as instituições e a classe política como um todo, a senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) assumiu, no 6º Congresso Nacional do Partido dos Trabalhadores, no último sábado (3), a presidência nacional da legenda. Gleisi é a primeira mulher a presidir PT, considerado o maior partido de esquerda da América Latina, com mais de 1 milhão e meio de filiados, de acordo com dados do TSE.
Em entrevista exclusiva à Fórum, a nova presidenta do PT falou sobre a experiência de ser a primeira mulher a assumir o cargo e, entre outras análises, disse acreditar que, com as atuais denúncias de corrupção envolvendo inúmeros partidos e, principalmente, a base do governo e o próprio presidente, as pessoas estão tomando consciência "do que realmente se passa no Brasil".
"As movimentações vêm crescendo e a sociedade brasileira está se conscientizando sobre o que se passa no país. Então, mesmo que a gente sofra derrotas no parlamento, na opinião pública e na consciência política nós estamos avançando.  E aí é uma questão de tempo para o parlamento refletir esses avanços e também a pressão popular", afirmou.
De acordo com a petista, o partido demonstrou, no último congresso, uma unidade política e tática poucas vezes vista com relação ao que fazer nessa conjuntura política. O entendimento comum dentro da legenda, de acordo com Gleisi, é muito objetivo: tirar Temer da presidência, barrar as reformas do governo, convocar uma Constituinte soberana, eleições diretas e, claro, eleger Lula como presidente da República.
Leia a entrevista na íntegra.
Fórum – A senhora se tornou, domingo, a primeira mulher a assumir a presidência nacional do Partido dos Trabalhadores. Que caminhos levaram PT, considerando a importância de ser o maior partido de esquerda da América Latina, a eleger, neste momento, uma mulher para a presidência e quais acredita que serão os reflexos disso? 
Gleisi Hoffmann – Na realidade, entre os grandes partidos, o PT é pioneiro em ter uma mulher na presidência. E isso é fruto da luta que o PT tem com relação à questões de gênero na sociedade. Nós somos o primeiro partido que instituiu as cotas para as direções partidárias. Começamos com 30%, e nesse 6º Congresso aprovamos a paridade. Ou seja, pelo menos 50% dos cargos do partido têm que ser preenchidos por mulheres. O PT foi pioneiro nisso. E isso deu condições pra que a gente fizesse uma bancada feminina maior nos cargos eletivos, no Congresso, em muitas assembleias e câmaras municipais. O PT também foi o primeiro partido que elegeu uma mulher como prefeita e presidenta da República. O partido tem uma história de compromisso com as mulheres e, claro, minha eleição é fruto dessa caminhada do partido.
Não temos outro partido grande que seja presidido por uma mulher. O PT demonstra, com a minha eleição e com a aprovação da paridade nos cargos partidários, o compromisso com a luta de gênero e empoderamento político das mulheres.
Para mim é um grande desafio presidir o PT, o maior partido de esquerda da América Latina, um partido com história, com enraizamento social, com presença nacional. É um desafio e quero dividi-lo com meus companheiros mas, principalmente, com minhas companheiras.
Fórum – Já há alguns anos, de forma ainda mais intensa após o impeachment da ex-presidenta Dilma, o PT sofreu inúmeras derrotas, tanto no parlamento quanto nas ruas. Muitos criticam que o modelo de mobilização da própria esquerda no Brasil já está esgotado e precisa ser renovado. O que senhora pensa sobre isso e o que pretende fazer enquanto presidenta do PT? 
Gleisi – A mobilização da sociedade pode ser feita por diversas formas. Redes sociais, manifestações por veículos de comunicação…. Mas jamais vai ter uma que substitua a mobilização de rua. Ela é fundamental. Não acho que seja uma forma ultrapassada. O povo na rua sempre é uma das maneiras mais diretas de exercer a democracia, a voz popular na pressão de seus representantes. E a esquerda brasileira, o PT, junto com os demais partidos e os movimentos sociais, vem em um acúmulo de forças desde o processo de impeachment.
Nós tivemos uma derrota muito grande. Eu diria que a democracia brasileira foi derrotada. Mas a esquerda, a centro-esquerda, também, ao se retirar uma presidenta que era de um partido de esquerda e legitimamente eleita.
Mas as movimentações vêm crescendo e a sociedade brasileira está se conscientizando sobre o que se passa no país. Então, mesmo que a gente sofra derrotas no parlamento, na opinião pública e na consciência política nós estamos avançando. E aí é uma questão de tempo para o parlamento refletir esses avanços e também a pressão popular. Eu acho que uma prova disso foi a votação que tivemos essa semana na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado sobre a Reforma Trabalhista. Foram 14 votos a favor e 11 contra. Então, foi um placar apertado. Inclusive, a base do governo teve que fazer mudanças de parlamentares na comissão pra garantir a presença e a maioria. O parlamento já está sentindo a pressão da rua, o que a sociedade brasileira está pensando. Isso é muito importante. É fruto das mobilizações, da organização dos movimentos e da própria esquerda. Não tenho dúvidas de que a gente está avançando e acumulando forças.
Fórum – O que a senhora julga ser mais urgente fazer, como presidenta nacional, neste novo ciclo do partido que se inicia com sua eleição? 
Gleisi- Nós tivemos uma vitória muito importante que foi o nosso 6º Congresso Nacional, que foi um congresso com uma forte base de unidade política. Há muito tempo o partido não tinha uma unidade política e tática tão grande com relação ao que fazer no momento, com a conjuntura que estamos vivendo. Saímos de lá unificados em torno de tirar o Temer da presidência, termos eleição direta para substituí-lo, não aceitar o colégio eleitoral, barrar as reformas contra o povo e construir a convocação de uma Constituinte soberana. Isso nos dá o rumo do que nós precisamos fazer. Através dessa unidade política é que o partido vai se organizar.
O PT, hoje, embora tenha sofrido todas as críticas, a desconstrução, a cassada midiática, é o partido entre os grandes que se coloca de pé, que tem um programa a oferecer para a sociedade, uma alternativa para sair da crise e um programa de governo. E é o partido que tem a liderança de maior expressão popular e que está na frente em todas as pesquisas eleitorais para a disputa da presidência do Brasil. Esse é o nosso desafio. Construir essa caminhada de radicalizar a democracia brasileira com eleições diretas e preparar a candidatura do presidente Lula.
Fórum – Muitos dos que se afastaram do PT, ou mesmo uma ala crítica entre os próprios petistas, analisam que o partido tenha, ao longo dos anos, se afastado de suas bases. O que a senhora pensa sobre isso e o que pretende fazer à respeito? 
Gleisi – Eu não vejo essa distância com as bases. Eu vi um 6º Congresso como resultado de uma mobilização partidária, com mais de 300 mil pessoas que foram às urnas do partido eleger os delegados para encontros nacionais. Um encontro de alto nível, com grande debate político. Vejo o Partido dos Trabalhadores nas ruas ao lado dos movimentos sociais, sindicados, radicalizando na defesa dos direitos da população brasileira, contra a reforma Trabalhista, contra a reforma da Previdência… Se houve um afastamento político do PT principalmente na época em que éramos governo, em que a relação com os movimentos ficou mais institucionalizada, vejo que agora o PT está vivenciando o dia a dia dos movimentos sociais, as lutas populares e esta próximo de suas bases. E vamos continuar fazendo isso. Radicalizando cada vez mais nessa aproximação.
Fórum – Boa parte dos problemas enfrentados pelo PT na Justiça, senão a maioria, tem origem no financiamento irregular de campanha. O que a senhora pretende mudar na presidência do partido em relação a isso?
Gleisi – Nós já fizemos uma mudança, inclusive, legal: de não ter mais financiamento de empresa privada em campanha. Isso é muito importante. O PT já fez, como outros partidos, essa ultima eleição, nesses termos. Acho que isso resolve grande parte dos problemas. O que temos agora é que aprovar a reforma política e regulamentar melhor. Por que não basta apenas a proibição de financiamento por empresa privada, mas também temos que ter um teto de gastos de campanha. Hoje, mesmo o teto fixado pela legislação é muito alto. Então o que acontece é que se nós não tivermos campanhas mais baratas, vão acabar se elegendo as pessoas mais ricas, que tem mais dinheiro. Isso é um problema. Temos que lutar para que tenhamos teto de gasto de campanha eleitoral e e lutar para baratear os custos, termos campanhas mais simples, de conversa com o povo, menos cinematográficas… Acho que, com isso, a gente consegue melhorar muito.
Fórum – Com todo o desgaste sofrido nos últimos anos pelas denúncias e a narrativa midiática, o PT acabou sendo associado ao estigma de partido mais corrupto, ao partido que “acabou com o país”, entre outras associações negativas. Como superar essa marca e reaproximar a população que se afasta ou que se afastou? 
Gleisi – É importante dizer que temos várias novas filiações no PT. Tivemos um público jovem muito grande agora no 6º Congresso, de todas as regiões do Brasil. Então, o PT não parou de filiar. Mas você tem razão em dizer que nós tivemos um desgaste grande, até por que teve uma campanha sistemática. Quando estourou essa questão da Lava Jato, o PT foi vendido pelos grandes meios de comunicação como partido mais corrupto do Brasil, que era uma organização criminosa. Aliás, o próprio Aécio Neves fez vários pronunciamentos na tribuna do Senado dizendo que o PT era uma organização criminosa. Recuperar isso é um convencimento junto à opinião pública.
Eu penso que o posicionamento do PT, hoje, em relação às reformas, em ser firme de enfrentar as denúncias, não se esconder, fazer o debate, demonstra que nós temos coragem para enfrentar e que não fizemos nada de errado. Errado à nível de crime. Acho que essa questão de financiamento de campanha realmente foi ruim para o partido. Talvez, lá atrás, nós tivéssemos que ter firmado mais posição pela reforma política, pela reforma eleitoral. Mas acho que agora temos condições de trabalhar isso. E o PT enfrentou, é isso que importa.
As pessoas estão vendo, depois dessas denúncias todas que acabam caindo sobre outros partidos, PMDB, PP, PSDB, que não era nada daquilo que a imprensa vendia. O PT não era a organização mais corrupta, uma organização criminosa. As pessoas estão vendo agora o que está acontecendo com outros partidos e, principalmente, como esses partidos estão envolvidos no desvio de recursos públicos. O PT não teve ninguém com enriquecimento ilícito, não teve envio de dinheiro para o exterior, não teve mala de dinheiro – coisas que estamos vendo nos outros partidos. Acho que a população começou a ter uma visão mais crítica daqueles que só criticavam o PT.
Fórum – Muitos dizem que o PT errou ao não fortalecer mais as ditas mídias alternativas diante do cerceamento midiático que vem sofrendo da imprensa tradicional há algum tempo. O que a senhora pensa sobre? 
Gleisi – Com certeza nós tínhamos que ter dado mais atenção e ter trabalhado mais com o que a gente chama de mídia alternativa ou alternativas de mídia. Isso não tenho dúvidas. A minha relação com a dita grande mídia é uma relação institucional, como é no Senado. Agora, eu tenho uma relação mais próxima, e vou ter uma relação ainda mais próxima, com essas alternativas de mídia, com os veículos de comunicação que têm uma visão do processo político diferenciada, muito mais próxima a visão que nós temos.
Fórum – A possibilidade de uma queda de Temer ainda este ano aquece o debate sobre a convocação de eleições diretas ou eleições indiretas. Qual será a prioridade do PT? Pensar em 2018 ou em “diretas, já”? 
Gleisi – Primeiro é importante dizer que Lula é o nosso candidato à presidência. É o plano A, B e C do PT. Vamos defendê-lo e preparar sua campanha. Agora, nesse momento que a conjuntura está nessa situação de crise aguda com relação à presidência da República e as instituições, nós estamos fortes em um movimento unificado das "diretas, já". Participamos, inclusive, com a frente de partidos políticos que não têm a mesma visão nossa de candidatura à presidência, mas que também acham que a saída é por eleições diretas. Então, nossa prioridade é eleições diretas, não participação ao colégio eleitoral, barrar essas reformas que estão desconstruindo os direitos dos trabalhadores e, claro, a saída imediata de Michel Temer.

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