03 março 2016

A coragem de Lula e o seu dedo decepado

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Caríssimo Prof. Vinicius Bonifácio, Goiânia, GO.
Um@ profess@r vive grandes e transcendentais alegrias, apesar dos maus tratos causados pelos baixos salários, pelo desprezo de chefes de instituições, que comercializam o ensino, e pela preguiça de alun@s mutilad@s pela alienação burguesa.
Outro dia, numa linda festa de aniversário, mencionaram o teu nome e a alusão de minha pessoa nos embates com a ditadura, que fizeste a um grupo de teus/tuas alun@s, me fez muito alegre e agradecido a ti.
Foste meu aluno de pós-graduação de um módulo "história da educação". Hoje lecionas história da educação. Teu desenvolvimento intelectual em plena comunhão com um compromisso social avançado só me fazem agradecido pelo que és. Ao fazeres mestrado numa universidade pública federal e ao lecionares noutra pública estadual mostras o que valoriza um@ educador@ séri@ e comprometid@ com a educação, como valorização do ser humano e seus potenciais éticos e políticos. Parabéns, meu irmão negro brasileiro.
Neste texto me proponho refletir sobre a coragem de Lula.
Por mencionar coragem me vem à mente um maravilhoso livro de minha juventude. Trata-se do "Coragem de Ser" do teólogo e vigoroso pensador Paul Tillich, publicado aqui no Brasil pela Editora Terra.
Coragem de Ser é produto de uma série de conferências feita por Tillich na Yale University, nos Estados Unidos. Portanto, é obra filha de rigorosa pesquisa e preparação de um professor comprometido eticamente com o conhecimento.
O autor investiga a palavra coragem desde os radicais gregos, latinos, franceses, ingleses e alemães, percorrendo os filósofos clássicos para definir os significados da coragem nas várias gerações e culturas.
Aqui importa-me a "coragem" que o autor relaciona como virtude ao lado da sabedoria, da temperança e da justiça.
Melhor, Tillich afirma que a coragem nos filósofos gregos é virtude subordinada à sabedoria.
A coragem é realização da nobreza ética do ser humano. Nobreza traduzida do grego significa "belo" e "bem". Em contrapartida, a covardia é feia e má.
Na linha idealista buscar o belo e o bem é tanger a transcendência ética ativa na divindade absoluta.
A coragem submersa na sabedoria é a superpotência humana de quem une o centro da vida – chamado coração e alma, plenos de vontade e de consciência – com a razão que a tudo fundamenta e explica. Ser corajos@ implica em conhecer a realidade e em viver o bem e a justiça, sendo b@m e bel@ nas ações e na luta pela justiça de tod@s.
Logo, creio que vivemos uma crise gigantesca entre a coragem e a covardia, hoje, no Brasil e no mundo.
De um lado @s corajos@s são agredid@s, difamad@s e desrespeitad@s e, de outro, covardes agridem, difamam e desrespeitam com virulência e sem razão, despidos de um mínimo de sabedoria.
Há figuras brasileiras, todavia, que honram nossa história por sua coragem e por todas as virtudes.
Numa entrevista à Jô Soares em 1988 Luiz Carlos Prestes disse que apoiava Leonel de Moura Brizola como governador do Rio, independente do partido dele aceitar ou não, porque aquele líder se notabilizou pela coragem e pela honestidade.
O grande líder nunca roubou o patrimônio público, jamais se aproveitou do poder para enriquecer. Sempre usou o poder para lutar pelo povo. Não titubeou em denunciar as corporações e o imperialismo, como monstro ameaçador de nossa soberania nacional.
Noutras palavras, o cavaleiro da esperança definia Brizola como líder dotado das virtudes da coragem, da temperança – incansável no trabalho pelo Estado –, da justiça – porque fazia da prática política meio para lutar pelo povo -, e da sabedoria porque procurava se cercar de grandes sábios como Darci Ribeiro, Abdias Nacimento, Oscar Niemeyer e outros.
Perguntado sobre Luiz Inácio Lula da Silva, em 1988 um grande líder sindical e deputado federal constituinte, Luiz Carlos Prestes disse que ele precisava estudar mais para entender a classe trabalhadora e a revolução.
Dizendo de outra maneira, o líder revolucionário afirmou que Lula carecia de sabedoria para ser corajoso, da razão edificada sobre os grandes postulados científicos a respeito de política para entender para onde e como deve caminhar a humanidade e sobre o poder a ser conquistado para atender aos interesses nacionais da classe trabalhadora.
Brizola, por sua vez, afirmou que Lula toca política de ouvido e que era preciso estudar para compreender os meandros mais complexos e desafiantes da luta pelo poder.
Claro, Prestes e Brizola não se referiam aos estudos academicistas arrogantes e despojados da prática militante. Isso não serve para nada.
A vida andou e fizemos história. Lula foi presidente do Brasil por duas legislaturas. Tornou-se o primeiro operário a ser chefe dessa nação. Alçou-se como uma das maiores e mais populares lideranças mundiais.
Mas será que Lula é corajoso no sentido da tese de Tillich?
É certo que Lula se transformou muito. Antes do poder fazia bravatas, era divisionista, politicamente moralista e raso ideologicamente. Durante e após a presidência tornou-se mais pragmático e mais capaz de fazer alianças com setores mais ao centro e à direita do espectro político, dentro e fora do seu PT.
A direita, contudo, o ataca em nome de falso combate à corrupção, mas, no fundo, temerosa de que sua atuação abra espaços para a revolução socialista. Setores de esquerda o condenam por ser demasiadamente versátil e ceder à direita, ao mercado e por não fazer as reformas de interesse nacional e dos trabalhadores.
Nos últimos eventos no contexto de crise e do fogo cruzado, Lula demonstra entender que não sinalizar mais avanços, mas empoderamento dos trabalhadores, mais estatização, menos mercado e mais estado, foi errado.
Hoje o ex-presidente reconhece que não regularizar a lei dos médios para submeter as comunicações aos interesses nacionais e populares, e não a grupos oligárquicos, como acontece com as atitudes desagregadoras e bestiais da Globo, da Veja, da Folha, do Estadão e de seus afluentes, que empestam os ares democráticos, foi equivocado.
No discurso por ocasião da comemoração dos 36 anos do PT, no Rio de Janeiro, na noite de 27 de fevereiro, o ex-presidente criticou fortemente a Globo e a mídia em geral por seu mau caráter e por sua disposição criminosa para mentir, caluniar e ferir de morte as imagens das pessoas.
Lula reconheceu que o próprio judiciário é covarde porque tem medo das manchetes contrárias da mídia. Judiciário e mídia atuam covardemente – no dizer de Tillich, sem sabedoria e sem senso do bem e do belo – em julgamento sem júri, sem investigação e sem defesa. Os vereditos são emitidos através de microfones de rádio, câmeras de TV, pelas páginas de revistas e de jornais.
Nas redes sociais muitos elogiam Lula dizendo que antes tarde do que nunca ele reconhece que a mídia age de modo psicopata e antissocial, pisando nos direitos humanos, bases da democracia.
Demonstrando a coragem dos sábios, Lula, no seu discurso na noite de 27, disse: "Nem a morte apaga a vida do homem de verdade. Se você tem uma causa, a causa fica pairando na cabeça de milhões de pessoas."
Em solidariedade ao ex-presidente o ministro-chefe da Casa Civil, Jaques Wagner, disse: "O povo brasileiro pode ter certeza de que Lula jamais se intimidará. Em vez de enfraquecê-lo, como esperam seus adversários, os reiterados e injustos ataques dos quais tem sido vítima nas últimas semanas só aumentam a vontade dele de continuar lutando por um Brasil mais justo".
"Lula jamais se intimidará"!
Wagner supostamente sublinha as virtudes de coragem e sabedoria de Lula para a luta "por um Brasil mais justo".
Porém, até onde li e escutei do discurso de Lula não percebi coragem e sabedoria suficientes para a autocrítica pelo erro de não fazer as reformas que o País carecia.
Daí as tragédias da perda de amplos setores sociais para a direita manipuladora e mentirosa, que conta com a mídia, com o judiciário, com a polícia federal, com a oposição esfacelada, antinacional e corrupta e com um Congresso Nacional pornográfico politicamente, dirigido por mafiosos e covardes.
Lula é o brasileiro mais desafiado à coragem e à sabedoria. Seu discurso e sua prática carecem ser afinados com os anseios mais profundos de justiça social contra as oligarquias colonizadas, parasitárias e pusilânimes.
Se pensa em se candidatar a presidente em 2018, Lula precisa desde agora construir uma plataforma de governo que inclua amplos setores da classe trabalhadora, do empresariado nacional, dos movimentos sociais e dos pobres ainda excluídos. Tudo isso precisa indicar o tom de reformas, não as neoliberais que os Cunha e Renan da vida querem, todas para destruir os direitos sociais.
Lula carrega em sua mão esquerda a marca das injustiças que o capital impõe aos trabalhadores. A falta de seu dedo mindinho causada por "acidente" de trabalho e dos deboches que a direita faz vira símbolo do desprezo ao povo e aos pobres.
Cada vez que a burguesia fascista vê aquela mão sem o dedinho sente ódio e pena de que todo o seu dono não tenha sido extirpado pela máquina triturante. Porém, cada vez que o povo brasileiro vê a falta daquele dedo sente a dor da injustiça e o apelo para a coragem de mudar essas relações injustas.

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