F. Gomes morreu sem realizar seu grande sonho: “escrever um livro”

804Arquivo da Rádio Caicó
Neste dia 18 de outubro de 2011, quando relembramos um ano de saudades do nosso eterno “F. Gomes”, o Blog recorre a uma de suas últimas entrevistas concedidas a uma revista imprensa, datada do ano de 2008 em Caicó. Com circulação especial em Caicó, a Revista Seridó em Foco contou um pouco, em página inteira, quem era F. Gomes. Separamos um dos trechos mais marcantes, para ilustrar essa singela homenagem, a quem convivemos por vários anos, que foi F. Gomes: Descanse em paz, amigo.
Aos 11 anos de idade, Francisco Gomes de Medeiros, ou simplesmente “F. Gomes”, veio da comunidade Barra da Espingarda, no município de Caicó, onde nasceu. Foi estudar na Escola Monsenhor Walfredo Gurgel. “Foi uma barra, como jovem acanhado da zona rural conviver com crianças de origem privilegiada na cidade”, comenta. Após concluir o primeiro grau foi estudar no CEJA, onde concluiu o segundo grau aos 17 anos, época em que fez vestibular em Natal para Engenharia Civil e não conseguiu ser aprovado. No ano seguinte foi aprovado em Matemática no Campus de Caicó. “Não sabia o que bem queria em termos de cursos, o importante era continuar nos estudos”, afirma.
Quando foi aprovado no vestibular lhe pelaram a cabeça. Convivia a época com amigos da Escola de Samba, pertencente a Firmino, localizada na Rua Comandante Ezequiel. A má fama se espalhava pela cidade por conviver com a turma. “Quando cheguei à festa dos aprovados no vestibular, no Iate, quase apanhei da policia porque queria entrar e diziam que eu era um marginal e estava mentindo, que não tinha sido aprovado no vestibular, em coisa nenhuma”, relembra. Quanto a escola de samba, relata: “Mas não era o que pensavam. Lá era uma verdadeira escola, o Firmino sempre foi um homem duro, que pensava no bem dos jovens. Aprendi muito com ele, a ser um verdadeiro homem, até a tocar instrumentos na escola de samba”, afirma.
F. Gomes começou a cantar, participou de grupos de seresta e de forró, lembrando que foi cantor do forrozeiro Geraldão. E foi dessa idéia de cantor que tornou-se locutor. “Participei de concursos de músicas de campanhas políticas e num determinado dia Tarcísio Costa me convidou para subir num carro de som numa campanha de seu irmão, Vivaldo Costa. A partir daí me tornei locutor e cantor de campanhas políticas. Ingressei na Rádio Seridó em 1985. Deixei de trabalhar em campanhas políticas em 1993”, relata., lembrando que foi cantor do forrozeiro Geraldão.
Na Rádio Seridó foi apresentador de programa musical, repórter esportivo, redator e depois repórter policial. “O Edson Soares me chamou para formarmos um programa policial. Faltava o nome e eu copiei da Rádio Globo do Rio, que tinha por volta das 13 horas – Alerta Geral. Ai foi um sucesso. Conforme pesquisas na época, 80% dos rádios eram ligados no programa diariamente”. Até que em 1996, F. Gomes deixou a Rádio Seridó e foi para a Rádio Rural. “Foi um desafio forte. Como eu com aquele perfil de programa iria trabalhar numa rádio da Igreja Católica? Mas, graças a Deus deu tudo certo. Agradeço pelo apoio que o diretor Monsenhor Tércio e meus companheiros de trabalho me deram”.
F. Gomes também trabalhou nos jornais Gazeta do Oeste e Tribuna do Norte e como repórter do Diário de Natal. Na Rádio Rural atuou ainda no Jornal Regional, no Noticias do Dia, mas o carro-chefe foi o Cidade Alerta. “Quando fui para a Rádio Rural pensei muito como iria conseguir reverter um quadro de audiência deixado na Rádio Seridó, mas foi mais rápido do que esperava. Graças a Deus e aos ouvintes todas as pesquisas apontam que sou o jornalista de maior credibilidade e de mais audiência na cidade”.
Quando era perguntado sobre medo e ameaças, ele respondia: “Ameaças de morte foram muitas e são, mas se a gente for pensar nisso, não sai nem de casa, quanto mais trabalhar contrariando interesses daqueles que praticam coisas erradas. Eu sou forte porque Deus está do meu lado e meus ouvintes rezam muito por mim”. F. Gomes, na entrevista lembrou de alguns furos jornalísticos que lhe marcaram, como por exemplo, as entrevistas dos bandidos mais temidos da época, como Zé Etelvino, que quando queria transmitir seus recados, ligava para o programa de F. Gomes, na Rádio Rural. Outro foi a sua ida para São Luiz do Maranhão, num avião cedido pelo Governo do Estado, acompanhado do juiz Henrique Baltazar, do promotor Geraldo Rufino e do Cabo Alexandro. Na ocasião, o pistoleiro Edmilson Fontes, que matou o promotor de Pau dos Ferros, Manoel Alves Pessoa Neto a mando do juiz Francisco Lacerda, se entregou.
Viajamos praticamente sem ninguém saber para onde tínhamos ido. Após ele se entregar numa residência seguimos para a procuradoria de Justiça de São Luiz, onde foi interrogado pela policia Federal que já tinha percorrido mais de 3 mil quilômetros a procura dele. Fomos para o aeroporto, todos com coletes a prova de bala e de lá para o Rio Grande do Norte. quando chegamos ao aeroporto de Parnamirim foi um tumulto muito grande”, relembrava F. Gomes. Outro caso que marcou muito F. Gomes, na sua avaliação foi à morte do representante comercial de Caicó, Edgley Félix. “Fizeram até passeata em minha homenagem pela luta para elucidar o crime, sob fortes ameaças”, afirmou.
F. Gomes por dois anos consecutivos ganhou o prêmio BNB Jornalismo do Rio Grande do Norte e ficou entre os quatro melhores jornalistas do Brasil, na categoria rádio, num concurso de matérias jornalísticas promovido por entidades educacionais, uma delas ligada a ONU, em solenidade ocorrida em São Paulo. Seu último compromisso profissional foi na Rádio Caicó AM, quando em 2007, convidado pelo radialista Suerda Medeiros, aceitou o desafio de comandar o departamento de jornalismo da emissora, que passara por uma total repaginada em sua equipe e programação. Com sua ajuda e de todos da equipe, a Rádio Caicó deixou o último lugar e assumiu o topo em todas as pesquisas realizadas na cidade.
O jornalista morreu sem realizar um de seus grandes sonhos: escrever um livro sobre os casos que investigou, durante sua trajetória profissional. “Ainda existem vários episódios envolvendo coberturas jornalísticas com integrantes de poderosas quadrilhas. Mas meu trabalho no rádio e nos jornais não se limita somente a área policial. Tenho lutado por muitas causas nobres em favor da comunidade. Minha alegria e minha felicidade é por dentro, por isso a verdade soa com facilidade dos meus lábios. Isso é do meu interior. Sou um homem feliz, não tenho de que reclamar, com exceção das injustiças”, finalizou F. Gomes na matéria concedida em 2008.
Fonte: Marcos Dantas

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