
Não faz muito tempo, nos pequenos municípios interioranos, exigia-se dos candidatos a prefeito ou a vereador que eles tivessem “prestado serviços” ao eleitorado. Se fosse um médico, por exemplo, a eleição estava quase garantida, ainda que o vitorioso não demonstrasse o menor jeito para o cargo.
Alguns prefeitos e dezenas de vereadores jardinenses elegeram-se por força desses “serviços prestados”. Eram professores carismáticos, comerciantes de sucesso, agropecuaristas benquistos nos sítios onde moravam. O poder econômico ainda não dava as cartas na política local. Mais valia a popularidade, a importância – e o tamanho – da família e a imagem do postulante a algum cargo público.
Muita coisa mudou desde então. Hoje, até as pedras do Piranhas sabem que bastam alguns milhões ou milhares de reais para conquistar um lugar na Prefeitura ou na Câmara de Vereadores. Somente um requisito permaneceu: a obrigação do candidato cumprimentar todos os eleitores que encontrar pela frente. Acostumamo-nos, desde a tenra idade, a presenciar os políticos, tão logo cheguem a determinado local, saírem apertando as mãos ou abraçando todas as outras pessoas que lá se encontrem.
Ressalto que não vejo nada de mal nisso. Cumprimentar as pessoas é sinal de boa educação, embora a maioria (eu, inclusive) só o faça em relação a amigos e conhecidos. Até mesmo os políticos, fora dos limites do município natal, não saem cumprimentando todos os que veem pela frente. Isso é normal. Qualquer um de nós, passeando pelas ruas de outra cidade, faz de conta que não vê quem passa ao lado. Não que isso seja um sinal de má educação ou orgulho. É, simplesmente, uma característica inerente a todo ser humano.
Essa obrigação de ser popular pesa bastante a quem ingressa no mundo da Política. De uma hora para outra, aquela pessoa normal, acostumada a conviver apenas com os mais próximos, vê-se obrigada a abordar todos em sua volta. Ou age assim ou será tachada de “orgulhosa”, “prepotente”, “mal-educada”. Infelizmente, para essa pessoa, também há o outro lado da moeda. Muitos logo criticarão a nova postura, tachando de falso ou oportunista todo aquele que, de uma hora para outra, cumprimentou-o pela primeira vez.
Não acho que isso tenha alguma importância no cenário eleitoral. Posso, perfeitamente, votar em alguém que nunca me dirigiu a palavra, mas que demonstre, durante a campanha eleitoral, estar preparado para ocupar o cargo que postula. Também não critico o candidato que, por força das regras do jogo, venha me cumprimentar, mesmo nunca tenho feito isso anteriormente.
Deixemos, então, a hipocrisia de lado. Todos sabemos que cumprimentar eleitores faz parte de nossa cultura política. Não há motivos, pois, para atacar quem apenas se comporta segundo as tradições. Em vez de se preocupar com essa questiúncula, melhor seria que se prestasse mais atenção ao preparo, à competência e à honestidade. É preferível um prefeito ou um vereador com essas qualidades a um que, por mais carismático e popular que se possa ser, revele-se uma tremenda fraude após tomar posse.
Fonte: Alcimar Araújo

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