LAMPIÃO: O LOBO DO CINZENTO*

Jair Eloi de Souza*
I -
Num cenário da caatinga, o Sertão enfureceu,
Teve início em Pernambuco, no Pajeú e Navio,
violência e tirania, um mundo sem lei nem rei,
Foi uma luta fraticida, ninguém popou o pavio.

II -
Na Vila de São Francisco, nasceu Senhor Pereira,
De linhagem nobre, rica, presteza e boa conduta,
Mas, a infâmia e o destino, que a vida lhe teceu,
A honra de homem manso, foi o motivo pra luta.

III -
Após a seca de quinze, veio a crueza dos tempos,
O Sertão abandonado, fome, saque, e desmatelo,
Matam Né da carnaúba, perdem a frieza os ventos,
Carvalho contra Pereira, a ninguém mais há bedelho.

IV -
Senhor Pereira, o escolhido, pela família enlutada,
Logo no terreiro de casa, conversa com virgulino,
Corre chão vai a Barros, arregimenta cabruada,
No coice da burrarada, também conta com livino.
V -
Na vertene dessa saga, do cangaço e do punhal,
deixei de citar Antônio, o mais velho dos Ferreira,
dizem ser o mais violento, nesse cenário mortal,
Contudo a besta fera, de longe é Senhor Pereira.

VI -
Em uma noite de samba, quando bateu a lezeira,
Lua nova, noite escura, dorme Né da Carnaúba,
Aproveitando a madorna, Age o negro Palmeira,
Mata Né, tio de Senhor, por traição feito Judas.

VII -
Era um negro alagoano, perverso e saguinário,
Escafedeu-se na noite, para às terras do além,
esquecendo da justiça, porquanto retardatária,
foi morar no Juazeiro, terra onde se fala amém.

VIII -
Botou morada, comércio, vizinho a um pobre cigano,
Não demorou muito tempo, a mostrar sua maldade,
perseguindo o pobre velho, a sua morada tomando,
Mas, a justiça divina não falha, faz o bem e caridade. 
IX -
Azucrinado da vida, sem parente, nem seu bando,
Aquele pobre cigado, firma visita, ao velho pajeú,
À Vila de São Francisco, Pereiras e seu comando,
Palmeira, disse sem cuido, matara Né Carnaúba.

X -
Bem cedo chega na Vila, de cabaço e matulão,
Entra na primeira venda, e indaga do seu dono,
Quem era, qual a família, precisava arranchação,
ouvindo:Pereira a raça, e Senhor é meu patrono.

XI
Pergunto a V. mcê, se o assuntar lhe interressa,
Não precisa se ofender, conhece o negro Palmeira?
longa viagem eu fiz, pra resposta não há pressa,
Trato de assunto sério, não vim cuidar de asneiras.

XII -
Sou Sobrinho do velho Né, primo de Senhor Pereira,
Ganjão pode me dispor, do tempo de um olho piscar?
Disse o dono da venda velha, sem perder a estribeira,
Viaje, na volta, apei-se aquí, temos assunto a tratar.

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