A Confederação Israelita do Brasil reagiu ao artigo em que o músico Caetano Veloso passou a defender o boicote a Israel. Leia, abaixo, o texto de Fernando Lottenberg:
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Por Fernando Lottenberg
Caetano Veloso e Gilberto Gil desafiaram a patrulha do ódio e do preconceito que tentou impedi-los de fazer um show em Israel em julho. Mas, se 10 mil israelenses lotaram a arena de Tel Aviv para ouvi-los com admiração e afeto, Caetano não quis ouvir o público israelense.
Uma vez na região, seguiu um roteiro que resultou em um longo artigo publicado nesta Folha no último domingo (8), anunciando sua adesão ao boicote contra Israel. Caetano tem todo o direito de criticar políticas do governo de lá. Israelenses e judeus fazem isso com frequência e intensidade. Criticar Israel, obviamente, não torna Caetano, nem ninguém, um antissemita.
Com seu artigo, no entanto, ele acabou por endossar a grande onda antijudaica que varre o mundo, pedindo o boicote ao Estado judeu. O filósofo francês Bernard-Henri Lévy definiu o delírio e a obsessão antissionista dos adversários da existência do Estado de Israel como expressão contemporânea do antissemitismo. É um tipo de militância de agressividade sem paralelo, num mundo cheio de conflitos e injustiças.
O movimento de boicote a Israel prega, de forma aberta, o fim do Estado judeu. Ele endereça questões complexas do Oriente Médio de forma reducionista, parcial e perigosa. O incitamento à perseguição, por meio de boicotes e sanções, não ajudará a resolver o problema palestino, mas ele certamente aumentará entre israelenses e judeus de várias regiões o sentimento de que o país é ameaçado por uma vizinhança e um mundo cada vez mais hostis, do qual precisa se proteger.
Basta ver o discurso, os métodos e a iconografia do movimento de boicote contra Israel para identificar as marcas do antissemitismo clássico. A imagem antiga do judeu com sangue nas mãos diante de indefesas crianças cristãs foi agora "atualizada" pela imagem do israelense, quase sempre um soldado, também com sangue nas mãos, diante de crianças palestinas.
Uma corte francesa já qualificou como "crime de ódio e discriminação" as iniciativas de boicote a Israel por um grupo de ativistas na cidade de Limoges (França). A corte do país confirmou a sentença.
Ao informar que não pretende voltar novamente a Israel, Caetano, embora bem-intencionado, endossa esse tipo de prática que estigmatiza os judeus e fomenta o ódio, afastando possibilidades de aproximação e de acordo.
Importante lembrar que, nos últimos anos, Israel colocou na mesa, ao menos em três oportunidades, propostas generosas que atendiam à maior parte das demandas dos palestinos. A resposta, em todas elas, foi negativa, uma delas seguida de onda de terror brutal contra civis israelenses. A solução só será atingida por negociações e compromissos dolorosos para ambas as partes, e é preciso ter vontade genuína para negociar e concretizar acordos.
Se os assentamentos israelenses atrapalham uma solução para o conflito, o que é fato, nada justifica esfaqueamentos e atropelamentos de civis inocentes como vemos hoje, nem boicotes generalizados.
Teria sido possível para Caetano também visitar famílias israelenses destruídas pelo terrorismo palestino indiscriminado mas, ao buscar informações parciais e limitadas, sua conclusão saiu torta.
Caetano deveria voltar ao Oriente Médio outras vezes, para obter uma visão mais completa e equilibrada sobre aquele trágico conflito, sem bandidos ou mocinhos, e colaborar para a sua solução.
Fernando Lottenberg é presidente da Confederação Israelita do Brasil.
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Por Fernando Lottenberg
Caetano Veloso e Gilberto Gil desafiaram a patrulha do ódio e do preconceito que tentou impedi-los de fazer um show em Israel em julho. Mas, se 10 mil israelenses lotaram a arena de Tel Aviv para ouvi-los com admiração e afeto, Caetano não quis ouvir o público israelense.
Uma vez na região, seguiu um roteiro que resultou em um longo artigo publicado nesta Folha no último domingo (8), anunciando sua adesão ao boicote contra Israel. Caetano tem todo o direito de criticar políticas do governo de lá. Israelenses e judeus fazem isso com frequência e intensidade. Criticar Israel, obviamente, não torna Caetano, nem ninguém, um antissemita.
Com seu artigo, no entanto, ele acabou por endossar a grande onda antijudaica que varre o mundo, pedindo o boicote ao Estado judeu. O filósofo francês Bernard-Henri Lévy definiu o delírio e a obsessão antissionista dos adversários da existência do Estado de Israel como expressão contemporânea do antissemitismo. É um tipo de militância de agressividade sem paralelo, num mundo cheio de conflitos e injustiças.
O movimento de boicote a Israel prega, de forma aberta, o fim do Estado judeu. Ele endereça questões complexas do Oriente Médio de forma reducionista, parcial e perigosa. O incitamento à perseguição, por meio de boicotes e sanções, não ajudará a resolver o problema palestino, mas ele certamente aumentará entre israelenses e judeus de várias regiões o sentimento de que o país é ameaçado por uma vizinhança e um mundo cada vez mais hostis, do qual precisa se proteger.
Basta ver o discurso, os métodos e a iconografia do movimento de boicote contra Israel para identificar as marcas do antissemitismo clássico. A imagem antiga do judeu com sangue nas mãos diante de indefesas crianças cristãs foi agora "atualizada" pela imagem do israelense, quase sempre um soldado, também com sangue nas mãos, diante de crianças palestinas.
Uma corte francesa já qualificou como "crime de ódio e discriminação" as iniciativas de boicote a Israel por um grupo de ativistas na cidade de Limoges (França). A corte do país confirmou a sentença.
Ao informar que não pretende voltar novamente a Israel, Caetano, embora bem-intencionado, endossa esse tipo de prática que estigmatiza os judeus e fomenta o ódio, afastando possibilidades de aproximação e de acordo.
Importante lembrar que, nos últimos anos, Israel colocou na mesa, ao menos em três oportunidades, propostas generosas que atendiam à maior parte das demandas dos palestinos. A resposta, em todas elas, foi negativa, uma delas seguida de onda de terror brutal contra civis israelenses. A solução só será atingida por negociações e compromissos dolorosos para ambas as partes, e é preciso ter vontade genuína para negociar e concretizar acordos.
Se os assentamentos israelenses atrapalham uma solução para o conflito, o que é fato, nada justifica esfaqueamentos e atropelamentos de civis inocentes como vemos hoje, nem boicotes generalizados.
Teria sido possível para Caetano também visitar famílias israelenses destruídas pelo terrorismo palestino indiscriminado mas, ao buscar informações parciais e limitadas, sua conclusão saiu torta.
Caetano deveria voltar ao Oriente Médio outras vezes, para obter uma visão mais completa e equilibrada sobre aquele trágico conflito, sem bandidos ou mocinhos, e colaborar para a sua solução.
Fernando Lottenberg é presidente da Confederação Israelita do Brasil.

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