Bahia 247 – O
deputado José Carlos Araújo (PSD-BA) afirma que, se Eduardo Cunha não
for cassado nesta segunda-feira, seus pares estarão cometendo suicídio
coletivo. Confira:
Suicídio coletivo
Por José Carlos Araújo
A Câmara dos Deputados,
infelizmente, vive momentos tristes e constrangedores. Refletindo sobre o
atual cenário, pergunto-me angustiado: como pode um único homem
concentrar tanto poder nas mãos a ponto de ameaçar as instituições e
estremecer as bases que fundamentam a República? Que poder é esse que
sustenta Eduardo Cunha?
Vou mais adiante. O que
leva partidos políticos a se unirem para evitar que um parlamentar, cuja
história recente está lavada de denúncias e acusações de corrupção,
mentiras e manobras de todo o tipo, perca seu mandato?
Essas reflexões me levam a
uma constatação: se confirmam os movimentos articulados para evitar a
cassação de Cunha. A Câmara dos Deputados caminha, inexoravelmente, para
a perda total da confiança do povo. Um sentimento de descrença nos
eleitores.
Nesse mesmo paralelo,
defensores do deputado afastado caminham para o abismo e pretendem levar
junto homens honrados e histórias irretocáveis.
O sucessor de Cunha na
presidência da Casa, o deputado Rodrigo Maia, anunciou para esta segunda
(12) a votação do pedido de cassação do seu antecessor. Além de ser um
dia atípico de sessões, a maioria dos parlamentares ainda está em seus
Estados, envolvidos nas campanhas eleitorais municipais.
Conclusão: podemos ter uma sessão esvaziada e sem o desfecho desse caso que envergonha a sociedade e macula o Congresso.
Não tenho dúvida alguma
sobre as boas intenções do presidente Rodrigo Maia, mas não há como
negar que a movimentação para derrubar a sessão marcada se torna cada
vez mais evidente.
Os aliados de Cunha
continuam afiados. Agora pleiteiam adotar a votação fatiada usada no
Senado no afastamento de Dilma Rousseff. Alguns defendem que, se ela foi
afastada definitivamente do mandato, mas manteve os seus direitos
políticos, a Câmara, por analogia, poderia adotar o mesmo entendimento,
cassando Cunha sem deixá-lo inelegível.
Querem forçar uma
situação que não cabe ser aplicada ao caso do deputado; tampouco
encontrarão qualquer respaldo jurídico. A ex-presidente respondeu pelo
crime de responsabilidade. No caso do parlamentar em questão, a análise
está sob a égide da ética e do decoro.
Nos processos
disciplinares, o plenário sempre votou o parecer oriundo do Conselho de
Ética, portanto, não há como tratá-lo como proposição, passível de
receber emendas com o intuito de mudar a decisão do colegiado.
Diante de tamanhas
articulações, um questionamento feito por muitos: a que ponto um
deputado afastado de suas funções consegue orquestrar tantas
movimentações para salvar o seu mandato, em meio a diversos desgastes
sucessivos?
Uma parte dos
parlamentares talvez se manifeste favoravelmente a Cunha para evitar
desavenças futuras ou por achar que os fatos evidenciados não justificam
a perda de mandato. Outros podem agir apenas pelo espírito
corporativista, motivados pela fala de Cunha em sua defesa: "Eu sou
vocês amanhã...".
Independente das razões, é
importante que nos façamos presentes à votação e possamos exercer nosso
papel votando no processo de cassação. Precisamos fechar esse capítulo
da nossa história e evitar que a nebulosidade continue a pairar no
Congresso.
Isso me faz evocar um
período tenebroso da história da humanidade. Cunha lembra-me certo
manipulador nazista. As articulações perpetradas na Câmara me trazem à
mente o trem que levava os judeus à morte. Estamos todos nesse trem a
caminho do nosso Auschwitz, querendo ou não.
JOSÉ CARLOS ARAÚJO, deputado federal (PR/BA), é presidente do Conselho de Ética da Câmara dos Deputados.

0 Comments:
Postar um comentário