Estive na tarde de ontem na avenida
Paulista, onde participei da concentração em frente ao MASP. À noite,
acompanhei de carro uma imensa passeata pela Rebouças que fez o trajeto
da Paulista até o Largo da Batata. Um colega que assistiu a passagem dos
manifestantes de cima de um viaduto calcula que o cortejo prolongou-se
por duas horas e acredita que pelo menos 100 000 pessoas desfilaram
perante seus olhos. Os organizadores fazem o mesmo cálculo. Numa reação
sintomática, a Policia Militar preferiu não revelar sua estimativa.
Na verdade, os números de todo ato
político sempre possuem um viés a favor ou contra. Sempre serão louvados
por um lado e questionados pelo outro. Seu significado político não
pode ser colocado em dúvida, porém. Os protestos de ontem indicam que a
luta contra o governo Temer segue seu curso e pode até ganhar um fôlego
maior.
Cinco dias depois do impeachment de
Dilma Rousseff, a base social de trabalhadores, mulheres e jovens que se
tornaram alvo preferencial das reformas estruturais inscritas na
prancheta do golpe foi às ruas para dizer que não pretende ficar quieta
e que vai defender seus direitos.
Foi assim em São Paulo, no Rio de
Janeiro e outros lugares. Estive no último ato da mobilização dos
aliados de Dilma contra o impeachment. Era menor que o de ontem. O
comportamento dos militantes -- era possível reconhecer a presença das
mesmas pessoas nos dois atos – também era diferente. Silencioso, quase
apático, no primeiro. Aguerrido, combativo, no segundo.
A agenda se modificou. Antes, o debate envolvia o destino de Dilma. Havia até uma divergência paralisante.
O Planalto era favorável a assumir o
compromisso de organizar um plebiscito para debater novas eleições,
caso Dilma fosse reconduzida. A maioria dos movimentos sociais era
contra. Queria o retorno de Dilma para que ela pudesse realizar o
governo para o qual foi eleita em 2014.
As manifestações, agora, respondem a interesses concretos. Um mesmo grito político continua: "Fora Temer!"
A situação é outra. A luta se
encontra no chão da vida real. Envolve reforma da Previdência, fim do
monopólio da Petrobras sobre pre-sal, desmonte da CLT. As manifestações
de domingo mostram que o governo Temer começa diante de uma oposição
imensa, que não tem a menor disposição de lhe dar trégua.
Os atos deste domingo sinalizam o
que será o país no pós-impeachment. Longe da paz dos cemitérios, temos o
retrato de um Brasil que não se rendeu nem vai se entregar. Haverá
luta, centímetro a centimetro, ponto a ponto, para impedir a destruição
do país.
A derrota vergonhosa do impeachment
passou. Mas, contraditoriamente, a consciência parece mais forte, e as
questões que envolvem o país e as novas gerações, mais claras e
urgentes. Os canalhas de que falava Tancredo Neves, como recordou
Roberto Requião não irão vencer.
Sentirão cada vez mais vergonha
quando andarem pelas ruas das grandes cidades. Serão aconselhados a
ficar de boca fechada para não estimular ainda mais a revolta. Vai ser
ainda pior quando viajarem para o exterior, para encontrar a repulsa da
brava gente que há 40 anos assinava manifestos contra o regime dos
generais e ajudou a parar a tortura, a garantir a volta de deles mesmos,
exilados ainda jovens, que desciam no Galeão e até davam a impressão
que sentiam saudade de serem brasileiros. Os amigos prestigiados de
ontem agora vão virar as costas, indignados e inconformados com a
traição, a falta de caráter. Mas não estão nem um pouco arrependidos e
deixam as pessoas de bem o exemplo da luta eterna pelas democracias.
As ruas brasileiras mostraram uma
gente de pé, que não se amedronta facilmente. Haverá guerra civil, disse
Requião, numa constatação que não é para ser lida ao pé da letra, mas
no horizonte histórico, apesar do aspecto sombrio da tropa de choque.
Já vimos tudo isso antes, me disse
uma militante que se tornou amiga aos 20, nos anos negros da ditadura
militar. Também vencemos.

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