Alvo de
constantes protestos por seu apoio aos golpes de 1964 e 2016, a Globo,
da família Marinho, publicou um editorial neste domingo digno da
novilíngua de George Orwell.
Para a família Marinho, a
conspiração que derrubou Dilma Rousseff foi legítima e a possibilidade
de novas eleições representaria um golpe.
Confira:
Não há via legal para antecipação de eleições
Ao discurso do
'golpe' segue-se a ressurreição das 'diretas já', uma bandeira política
inexequível, a não ser na ruptura institucional de um golpe de estado
Quando a guerra do
impeachment começou a ser perdida, o entorno de Dilma e o lulopetismo
trataram de lapidar uma versão, ou “narrativa”, política para a derrota,
numa tentativa de volta por cima. Construíram a tese do “golpe”,
risível, mas que chegou a ser tratada no exterior, junto a simpatizantes
petistas no mundo acadêmico e na imprensa, como algo sério.
Não só o impedimento em
si da presidente, garantidos todos os direitos de defesa, mas o fato de
ela ter participado de longa sessão no Senado, perante o qual proferiu
discurso sem interrupção e respondeu a perguntas sem direito a réplica,
esvaziaram o balão do "golpe".
Mas como o PT e aliados se movem voltados para o calendário eleitoral deste ano e de 2018, outras "lutas" ganharam fôlego.
A do plebiscito para a
antecipação do pleito presidencial de 2018 não animou sequer Rui Falcão,
presidente do partido. Com a cara de Dilma, a ideia era de difícil
execução: precisava de aprovação do Congresso, além da própria
realização da consulta. Na ponta do lápis, o tempo não compensaria.
Melhor, portanto, esperar 2018.
Mas a militância precisa
de combustível. Foi, então, exumado o slogan "Diretas já". Simpático,
mas inadequado, por inexequível. Não apenas pelas fundadas diferenças
entre os momentos históricos — em 1984, a ditadura militar resistia a
permitir o retorno do voto popular, enquanto hoje cumpre-se o que
estabelece a Constituição promulgada em 1988 e a Lei 1.079, do
impeachment, de 1949, atualizada em 2000 para incorporar preceitos da
responsabilidade fiscal, atropelados por Dilma e por isso cassada.
Não há alternativa legal
para se antecipar eleições. Até 31 de dezembro, quando vence a primeira
metade do mandado presidencial em curso, se Michel Temer sair, assume o
presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e convoca-se eleição direta. A
partir de 1º de janeiro, eleição indireta pelo Congresso.
Não existe na Carta a
possibilidade de emenda antecipar o pleito, porque a periodicidade com
que se vai às urnas é cláusula pétrea, incluída no artigo 60 da
Constituição. Tem, ainda, o mesmo status jurídico o direito adquirido
pelo vice de governar, com o impedimento do presidente (artigo 79). Nada
disso pode ser mudado, nem pelo quórum exigido para proposta de emenda à
Constituição, de três quintos dos votos (60%), em dois turnos de
votação, em cada Casa. O projeto petista de “diretas já" só poderia ser
realizado num golpe de estado, numa ruptura institucional, algo que os
brasileiros pactuaram deixar no passado de vez.
Há por trás dessa
obsessão de petistas e aliados em mudar a Carta um aspecto da ideologia
bolivariana, absorvida pelo nacional-populismo brasileiro. O chavismo
produziu a maior tragédia da história da Venezuela com mudanças feitas
na Carta pela manipulação das ruas, estopim de crises institucionais e
causa de grande insegurança jurídica, em todo país que adota o ardil.
Veio daí a bandeira
lulopetista da "Constituinte exclusiva", para fazer a reforma política.
Não é bom caminho, até porque também é uma ilegalidade. Se o Congresso
não consegue formar maiorias de três quintos dos votos de deputados e
senadores para executar mudanças pontuais na Carta, é porque a emenda em
discussão não deve mesmo ser acolhida. Lógico. De novo: "Constituinte",
só depois de rupturas. Deriva desta mesma visão torta a volta das "diretas já". Este, sim, o verdadeiro golpe.

0 Comments:
Postar um comentário