O ano político, claro,
começa com o julgamento, com sentença razoavelmente previsível, do
ex-presidente Lula no dia 24 de janeiro.
O mais provável – resta
sempre a esperança em algum nível de lucidez dos seres humanos – é que
comece ali a experiência, inédita no Brasil, de uma eleição onde o
conservadorismo pretende contar a possibilidade de uma disputa interna
da direita, apenas.
Geraldo Alckmin, Rodrigo
Maia, Henrique Meirelles e Marina Silva, entre si, creem que
travariam um "jogo de compadres", deixando que a mídia e a falta de
tempo de televisão mantenham Jair Bolsonaro no patamar entre 15 e 20% do
qual não se vislumbra possa sair.
Ciro Gomes, com os arroubos
do seu individualismo, tem um ponto de partida mas não tem mostrado
capacidade de somar, para que seja um ponto de chegada, infelizmente.
Lula continuará em
campanha, independentemente do resultado do julgamento, até que possa
medir os efeitos do trauma de ter-se o candidato com imenso favoritismo
extirpado do processo eleitoral.
É ele que dará ao
ex-presidente a observação necessária entre insistir, como deve fazer,
ou de indicar um candidato. Alguém que pode, até, começar de baixo, mas
que terá a unção do "ele disse". Só muito desespero poderia levar a uma
decisão de prisão imediata de Lula, com consequências imprevisíveis,
exceto na radicalização política que irá causar.
Há, portanto, um divisor de
águas no julgamento do TRF-4, em Porto Alegre: ali decidir-se-á se
teremos uma eleição democrática e livre ou se optarão por um processo de
traumas sucessivos.
Atalhos para alcançar o
poder são, sempre, caminhos cheios de despenhadeiros. O PSDB jogou fora
uma vitória praticamente assegurada em 2018 quando resolveu apelar para o
golpismo e é agora o mulambo que todos vêem. Marina Silva, duas vezes "azarão" expressivo, cometeu um erro fatal ao emprestar-se a Aécio Neves
no segundo turno de 2014 e é hoje um macarrão sem sal e sem molho,
incapaz de agradar ou empolgar.
As candidatura de Meirelles
e/ou Rodrigo Maia precisarão ser "inventadas" e podem "morrer"
precocemente com a derrota da emenda da Previdência. E não está fácil
ser diferente disso, ainda mais porque, apesar do discurso oficial da "retomada da economia", o panorama continua desalentador quando sai dos
jornais e vai para a poeira das ruas.
O povão observa e espera e
as pesquisas dão sinal de que cai, até entre a classe média, o altar da
Lava Jato e, com ele, a perspectiva de que se possa legitimar a exclusão
de Lula.
Infelizmente, parte de uma
autointitulada esquerda "purista" caminhou para um udenismo "cult" e
reproduz, com punhos de renda, o discurso moralista de que se vale a
direita para encobrir a exploração cruel que tem como projeto – mal se
pode chamar assim – para o país.
Serão tempos muito duros, os meses de 2018 e precisamos conservar a cabeça lúcida e fria e manter os corações quentes.
Os índices obtidos por Lula, depois do massacre do qual foi vítima, mostram a força da memória da população.
Não somos nós, da classe
média, quem estamos mostrando a ela os caminhos que deve seguir. É ela,
no seu instinto de sobrevivência, quem nos está ensinando.
Por Fernando Brito, editor do Tijolaço

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