Tecnicamente, a expressão lame duck, pato manco em inglês, se refere
ao político cujo sucessor já foi eleito. Nos EUA, o termo é aplicado
para presidentes em fim de mandato ou para os que não se reelegeram mas
ainda têm tempo até entregar o cargo.
Num sentido mais amplo, é o político sem poder de fogo, uma carta
fora do baralho, um morto em vida. Aécio Neves é o pato manco do Brasil.
Suas aparições públicas, sempre indignadas com a da corrupção do PT,
foram escasseando na mesma medida em que se avolumaram as citações na
Lava Jato.
Aécio hoje se comunica com um público um pouco maior que a sua
plateia cativa através de sua coluna na Folha, que repercute menos e
menos. Há três semanas ele falou do Brexit; depois, do aniversário de 22
anos do Plano Real.
Seu perfil no Twitter foi atualizado no dia 9 de julho. Fotos com um
Zico obscenamente barrigudo acompanhavam a legenda papo furado sobre ele
“ainda bater um bolão fora do campo”.
Aécio desapareceu em sua manquitolagem. Foi vítima, sobretudo, de sua
ambição e da crença de que era intocável. Crença esta, aliás, amparada
na realidade, já que sua carreira na impunidade atravessou décadas.
Não era o ele esperava. Afinal, Dilma foi afastada e Lula tem de
lidar com Sérgio Moro. O impeachment deve muito a Aécio, que não aceitou
a derrota em 2014 desde a primeira hora e apostou todas as fichas na
instabilidade.
Aécio preside, por enquanto, o PSDB, mas vê a sombra de Alckmin
crescer sobre seu jardim. Não há delação em que não apareça: na do
doleiro Alberto Yousseff, na de Delcídio Amaral, na do ex-deputado Pedro
Corrê, na do ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado.
O escândalo de Furnas, cuja lista a Veja trabalhou tenazmente para
desqualificar, ressuscitou com toda a força. Machado disse que ajudou-o a
levantar 7 milhões de reais, em 1998, e distribui-los entre 50 tucanos
na campanha de Aécio para a presidência da Câmara. De onde veio isso,
tem mais.
Aécio tentou responder à maioria das acusações, até que chegou o
momento em que simplesmente não deu conta diante da quantidade e do
impacto.
Teve de engolir Michel Temer roubar seu papel de comandante do golpe.
Temer representava menos risco. Uma cena emblemática marcou esse fim de
linha: sua expulsão, aos gritos de "ladrão" e "filho da puta", da
manifestação coxa na Paulista em 13 de março. Aquilo doeu. O protesto
era dele. Aquele era seu povo.
Atualmente, age nos bastidores. Para quem viveu sob os holofotes, é
uma mudança triste. Isso era para o Cunha, ora. No domingo, jantou com o
interino no Palácio do Jaburu para falar sobre a eleição do presidente
da Câmara.
Em junho, Sonia Racy escreveu, em sua coluna no Estadão, que ele "tem
lembrado a amigos que nunca foi a favor do impeachment". A antiga
blindagem na imprensa caiu, Serra dá suas cacetadas como ministro,
Alckmin tem falado por aí, sem fazer questão de esconder de ninguém, que "sobrou" ele no partido. Nem FHC menciona mais o seu nome.
Ele perdeu o bonde de 2018 e sua desconstrução está segue firme.
Napoleão observou que do sublime ao ridículo é apenas um passo. Aécio
Neves foi de futuro do Brasil a pato manco de um só golpe.

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